Reflorestar com espécies nativas é economicamente viável, diz estudo

Por Daniela Chiaretti

Apostar no reflorestamento com espécies nativas e sistemas agroflorestais é um bom negócio. O replantio feito com espécies da Amazônia e da Mata Atlântica tem viabilidade econômica comparável a investir em cobertura vegetal com pinus e eucalipto.
Esse é um dos resultados do primeiro estudo do projeto Valorização Econômica do Reflorestamento com Espécies Nativas (Verena), do WRIBrasil, uma organização de pesquisa com foco em clima, energia e florestas. O Verena é feito em parceria com a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
O Brasil tem entre suas metas climáticas reflorestar 12 milhões de hectares até 2030. Pesquisadores têm buscado formas de dar escala a projetos de reflorestamento com espécies nativas e agroflorestais (conhecidos pela sigla SAF) que precisam apresentar rentabilidade para atrair investidores.
O estudo de 40 páginas analisou a performance de 12 casos de propriedades na Amazônia e na Mata Atlântica nos últimos dois anos. Estudaram também os benefícios sociais e ambientais da iniciativa. A análise mostra que, em média, o retorno dos ativos é maior (16%) para o reflorestamento com espécies nativas e SAFs do que a média da agricultura e silvicultura com pinus e eucalipto (13%).

“Nosso filtro foi o viés econômico. Quisemos analisar o reflorestamento de nativas e SAF como um negócio”, explica Alan  Batista, analista de investimentos do WRI Brasil e autor do estudo. Na análise entraram a rentabilidade da madeira e de culturas anuais como cacau e seringueira. “Estudamos fontes de produtos da economia real além de analisarmos produtos do capital natural”, continua Batista. No futuro, o estudo examina possíveis desempenhos do produtor rural em mercados de carbono ou os usos econômicos da Reserva Legal prevista no Código Florestal. 

Um dos casos estudados é o de um investimento no sul da Bahia. O modelo adotado foi de um sistema com cacau, seringueira e plantio de banana. “É um SAF que vem sendo implantado nos últimos anos e indica a preocupação do produtor de não depender de um só produto”, diz Batista. “Vimos que o retorno do SAF é comparável ao da monocultura de pinus e eucalipto e traz uma diversificação de receita. Como cacau é commoditie, o investimento tem risco reduzido porque não está preso a um só produto”, continua. 

O estudo também mostra que o retorno médio do investimento é de 16 anos. O retorno médio com as espécies exóticas mais usadas no Brasil gira em torno de 12 anos. “As espécies nativas são selvagens e para os plantios ganharem escala precisam ter melhoramento genético”, indica. “As possibilidades de ganhos são grandes.” 

“A questão de sementes e mudas da Amazônia e da Mata Atlântica é o grande gargalo para entender essa economia florestal em larga escala”, diz Miguel Calmon, diretor de florestas do WRI Brasil. 

A análise será apresentada hoje para especialistas da área florestal, investidores, representantes de governos e de ONGs em evento em São Paulo. Um dos desdobramentos do trabalho é uma ferramenta que simula projetos de reflorestamento com espécies nativas e SAF. 

“As espécies nativas brasileiras protagonizam experiências comerciais bem-sucedidas, mas não no mercado de capitais. Estudos de caso podem diminuir a percepção de risco”, diz Batista. 

Comentários

%d blogueiros gostam disto: